Excerpt for O Projeto 3.7 e Nós by Washington Conceicao, available in its entirety at Smashwords

O PROJETO 3.7 E NÓS


Histórias de uma família brasileira durante residência em Chicago



by Washington Luiz Bastos Conceição


Smashwords Edition


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A Leilah, minha esposa, protagonista da aventura, e a nossos filhos, filha, noras e netos, cujas vidas foram, em diferentes graus, direta ou indiretamente, influenciadas pelo Projeto 3.7.



Contei, mais uma vez, com a paciência e boa vontade admiráveis dos revisores, que vêm contribuindo com observações e sugestões muito úteis para o aperfeiçoamento de meus livros. Por esse apoio fundamental, meus agradecimentos ao amigo Carlos Gentil Dias Vieira; a Leilah, minha esposa, que me ajudou, ainda, a lembrar de algumas histórias; a Adriana e Simone, noras; e a Jurema, filha.


SUMÁRIO


O porquê deste livro

Chicago,muito prazer

A decisão

As primeiras semanas

Northbrook

A equipe do Projeto

Prospect Heights

A vida entra em regime

As reuniões sociais do grupo do Projeto

Usos e costumes

Enfrentando o inverno de Chicago

Lidando com o idioma

Socializando-nos

Passeios

A surpresa

O projeto 3.7 propriamente dito

Visita ao Brasil

Os_ultimos_meses

A viagem de volta ao Brasil

Recebendo o novo bebê

Mudança para o Rio - o novo desafio

E agora, Washington?

Sobre o autor


O porquê deste livro


Quando me ponho a recapitular os acontecimentos críticos de minha vida, aqueles que tiveram uma influência fundamental no meu caminho e no de minha família, penso como o acaso nos leva a situações que requerem decisões nossas e como estas trazem consequências importantes para o resto da vida.

Sou brasileiro, casado com brasileira, pai de quatro filhos brasileiros e avô de três netos; já completei setenta e nove anos. Por que, então, dois de meus filhos vivem nos Estados Unidos e os quatro são bilíngues e têm considerável experiência de vida e de trabalho no exterior? Por que tenho dois netos americanos e um brasileiro?

Um de meus filhos, Cássio, o segundo, foi, aos dezoito anos, estudar Engenharia na Califórnia; formou-se, fixou residência naquele estado, casou-se com uma colega americana, tem dois filhos (nascidos lá) e só vem ao Brasil de visita. O mais velho, Luiz, radicado no Brasil, embora aprecie muito a vida no Rio de Janeiro, mudou-se recentemente com a esposa para Nova Jersey, com a perspectiva de uma longa temporada por lá.

O terceiro, Francisco, estudou Economia na Califórnia, voltou para o Brasil e vive no Rio; é pai do terceiro neto; este, carioca. Jurema, a caçula, mora atualmente no Rio, após ter trabalhado cerca de quatro anos no exterior e dois em São Paulo.

*****

Em 1968, eu tinha trinta e cinco anos, já era casado e tinha três filhos. Morávamos em São Paulo e eu trabalhava na IBM. A expectativa de nossa família (pais, os meus e os da Leilah, irmãos, tios e primos) era que eu fizesse carreira na Empresa, permanecendo em São Paulo, embora houvesse a possibilidade de mudança para outro estado ou, menos provável, para o exterior.

Naquele ano, fui designado para um projeto internacional da Empresa em Chicago, Illinois, Estados Unidos. Ao nos mudarmos para lá, iniciou-se uma temporada muito especial em nossa vida, de cerca de um ano e meio naquele país, a qual viria a influenciar profundamente o destino de nossa família. Tornou-se nosso ponto de inflexão na vida, nosso “turning point”. Ela foi a razão fundamental de termos tomado, mais tarde, caminhos diferentes.

As lembranças que tenho de nossa aventura em Chicago, das experiências em terra estranha de um casal jovem com três filhos pequenos, vêm em forma de causos encadeados, abrangendo meu trabalho com colegas das mais variadas nacionalidades e, principalmente, a vida de minha família e o convívio com os amigos que fizemos lá.

A vontade de contar esses causos me fez escrever este livro, no qual, como em meu primeiro, o “Histórias do Terceiro Tempo”, adotei a forma de me dirigir ao leitor como se estivéssemos conversando pessoalmente em uma em reunião em casa, calmamente, com bastante disponibilidade de tempo. Com as grandes vantagens, para quem está lendo, de interromper a conversa quando bem entender e de saltar capítulos conforme seu interesse pelos respectivos assuntos.

Vou tratar você como “caro leitor”, significando também “cara leitora”. O que eu não quis fazer, de forma alguma, foi usar o formato “caro(a) leitor(a)”, do qual não gosto. Cheguei a pensar em usar “dear reader”, aproveitando-me do significado duplo do Inglês, mas desisti porque acho que poderia ser mal interpretado...

Caro leitor: as histórias que conto aqui têm idade, mais de quarenta anos, de modo que você vai notar diferenças sensíveis de hábitos, ambientes e, especialmente, recursos tecnológicos. Hoje, já não é mais uma aventura uma família se mudar para os Estados Unidos, basta observarmos que vários dos amigos e conhecidos nossos têm filhos e netos morando no exterior. Naquele tempo era um acontecimento raro, de tal forma que toda a família e os amigos mais chegados iam despedir-se dos viajantes no aeroporto – iam ao bota-fora. Espero que você leia o livro levando em conta as diferenças trazidas pelo tempo e que, até, goste de algumas das histórias. Se tiver vivido uma designação no exterior, como aconteceu com vários conhecidos meus, poderá fazer comparações com seu próprio caso.

*****

Otimista que sou, espero também que minhas histórias contenham informações úteis para pessoas que venham a viver situações parecidas com algumas que eu e minha família enfrentamos.


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Chicago, muito prazer!


O desembarque no aeroporto O’Hare foi algo incomum, para dizer pouco; foi quase dramático. Um casal com três filhos e umas oito malas grandes chegando à hora de almoço, após uma viagem São Paulo – Rio – Nova York (onde entramos no País e mudamos de aeronave) e, finalmente, Chicago. Era maio de 1968, os aviões eram Boeing 007, os mais modernos de então. Leilah, minha esposa, e eu estávamos na casa dos trinta anos e os filhos tinham: Luiz, sete anos; Cássio, cinco; e Francisco, dois e meio.

*****

Como procedimento normal, o casal deveria ter feito uma visita preliminar a Chicago, a “look and see trip”, para planejar a mudança; entretanto, como minha incorporação ao projeto se tornara urgente, não houve tempo para essa visita. Assim, nossa chegada de mudança com três filhos pequenos, sem ter conhecimento prévio da cidade, foi bem complicada.

A orientação que recebi para irmos do aeroporto ao hotel era usar um ônibus especial que transportava passageiros para os principais hotéis, entre os quais aquele que havia sido reservado para nós. A solução nos pareceu boa, pois nossa família iria precisar de, pelo menos, dois taxis, teríamos de viajar separados e a despesa seria muito maior.

Achamos o ônibus que nos levaria ao Hotel Sheraton da Michigan Avenue, em Chicago; a bagagem foi carregada, acomodamo-nos e , sem grande demora, iniciamos a viagem ao centro da cidade onde, por cerca de dois anos, eu iria trabalhar. Tivemos então um primeiro contato com a Roosevelt Expressway, seu tráfego impressionante, até que, ao nos aproximarmos do centro da cidade, vislumbramos o perfil marcante de seus grandes edifícios e, a seguir, suas ruas e avenidas que depois se tornaram tão familiares para nós. Chegamos ao hotel, situado no trecho da avenida conhecido hoje como a Golden Mile, que concentra estabelecimentos comerciais de alto nível, restaurantes e hotéis, e se beneficia da proximidade do lago Michigan e do rio Chicago, com suas pontes vistosas.

*****

No desembarque do ônibus, recebi uma bronca do motorista por causa da quantidade de malas: “You should have taken a cab!”. Não foi uma observação muito delicada, mas não tinha de lhe dar explicações; apenas, dei-lhe a gorjeta convencional.

O hotel nos acomodou muito bem, com dois apartamentos espaçosos com comunicação interna, o que foi ótimo para nós.

Uma vez organizados os quartos, arrumada a roupa nos armários, banhos tomados, tratamos de comer. Do primeiro almoço não me lembro mas, provavelmente, as crianças comeram hambúrguer e tomaram refrigerantes. Porém, lembro-me muito bem quando, à noite, tive de descer até a lanchonete (“cafeteria”) do hotel para pedir leite quente para a mamadeira do Francisco. Pedi “hot milk”, um item que não havia no cardápio; a garçonete, uma negra grande e forte acabou me atendendo bem; expliquei que o leite era para o meu “baby” e tive de ouvir a correção dela, ao perceber que eu era estrangeiro: “Você não quer “hot milk”, você quer “warm milk”” (pronunciando “melk” com bastante ênfase).

Eu, que havia estudado Inglês a vida inteira, me comunicava bem com americanos da IBM e de clientes e já havia estado em Nova York a trabalho, tive naquele momento a primeira das muitas lições que recebi em minha temporada em Chicago, sobre o idioma. Aliás, o aperfeiçoamento do Inglês foi muito importante para nossa vida nos Estados Unidos e é um assunto de que tratarei adiante, no contexto de algumas das histórias e em um capítulo especial.

*****

Chegamos a Chicago no dia 28 de maio, uma quarta feira.

Na quinta, telefonei para o escritório em que iria trabalhar, mas fui atendido por uma pessoa que era provavelmente vigia do edifício e que me informou que naquele dia não havia expediente. Fiquei sabendo que era feriado, o “Memorial Day”, o dia de Finados dos americanos. Ganhei um dia de folga inesperado e acompanhei um pouco das 500 milhas de Indianópolis na televisão. Na sexta, feriado emendado, não houve expediente (pois é, caro leitor, fazer ponte na sexta quando é feriado na quinta é coisa antiga).

Aproveitamos o final de semana para nos estabelecer no hotel e conhecer a avenida e áreas próximas do centro. Caminhamos pela Michigan Avenue em direção ao sul, pelas ruas às margens do rio, admirando as grandes pontes levadiças. Fomos ao centro da cidade (o “Loop”) e demos a primeira olhada no lago. O tempo estava muito bom, dias ensolarados de primavera anunciando o verão.

Na segunda feira, apresentei-me no escritório do Projeto, instalado em um edifício da SRA (Science Research Associates, empresa subsidiária da IBM) à Rua Erie. Esta era próxima ao hotel e a umas duas quadras do Lago Michigan.

*****

Permita-me agora, caro leitor, voltar um pouco no tempo para lhe contar o que me levou à IBM em São Paulo e, depois de alguns anos, a esta aventura em Chicago.


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A decisão


Meu início de carreira na IBM


Formado em Engenharia Civil pela Escola Politécnica de São Paulo em 1955, trabalhei durante quatro anos como engenheiro, iniciando de forma independente e depois me estabelecendo, com sócios, com empresa própria de Engenharia e Arquitetura. Tive a oportunidade de participar de projetos muito interessantes e de atuar em cidades pequenas do interior do estado de São Paulo. Em 1959, atraído pela nascente atividade de computação eletrônica no Brasil, passei a trabalhar na IBM, no primeiro grupo de especialistas que esta Empresa formou aqui no País para comercializar computadores eletrônicos (chamados então “cérebros eletrônicos”) e dar apoio técnico aos clientes. Trabalhei na IBM por vinte e quatro anos, de 1959 a 1983, sempre com atividades interessantes e desafiadoras.

Comecei na Filial de São Paulo, recebendo inicialmente um treinamento especial de mais de seis meses, já admitido na Empresa, em tempo integral. Participei de um grupo de cerca de vinte profissionais, todos com curso superior de base matemática. Já era uma época de evolução tecnológica rápida, pois, quando estávamos acabando de instalar no Brasil computadores com válvulas, já eram anunciadas novas máquinas com transistores e circuitos impressos. Com isso, nosso grupo teve de aprender o funcionamento, programação e aplicação de diferentes máquinas já instaladas ou em instalação e daquelas que provavelmente seriam trazidas para o mercado brasileiro.

Após o curso, começamos a trabalhar como representantes especiais de apoio aos clientes e futuros clientes de computadores, numa função que, nos Estados Unidos, se chamava Systems Engineer. No Brasil, não se poderia, por lei, utilizar esse título, já que nem todos eram engenheiros. A solução encontrada para nosso cargo, que figurou em nosso cartão de visitas, foi simplesmente: “Representante Especial para Sistemas Eletrônicos de Processamento de Dados”. Como você pode imaginar, nosso primeiro trabalho junto aos clientes era informar o que significava o título, ou seja, descrever nossa função – o que não era fácil.

Algum tempo depois, inventaram “Analista de Sistemas”, que passou a ser de uso geral, para fornecedores e profissionais dos clientes.

De Analista de Sistemas passei a Representante Técnico de Vendas e, desta função, com menos de três anos na Empresa, a Gerente do Centro Educacional da IBM em São Paulo. Este Departamento era responsável pelo treinamento do pessoal técnico dos clientes e por programas para executivos realizados em São Paulo. Uma das razões para me convidarem para este cargo, recém-criado, foi meu estilo de vender – eu seria classificado hoje como um vendedor consultor – pois, ao oferecer o produto, eu fazia apresentações e seminários ao pessoal dos clientes para que eles entendessem melhor a solução que eu estava propondo. Eu não era um vendedor típico, mas fiquei dois anos em vendas, atingi os objetivos e fui promovido.

*****

No Centro Educacional, tive a oportunidade de fazer inovações, enfrentei uma fase de necessidade intensa de treinamento a profissionais de clientes por causa da introdução da linha IBM/360, os primeiros computadores (de médio e grande porte) a usar chips e a fixar a codificação dos caracteres em bytes (oito bits). Os periféricos dos sistemas também evoluíram, com novas impressoras, unidades de fita magnética (rolos) e, especialmente, discos removíveis. Nessa fase, a IBM intensificou sua atividade de cursos a executivos que eram realizados no Rio e em São Paulo. Estes eram coordenados por mim e, para garantir o isolamento dos executivos, realizamos os programas num hotel do Guarujá. Recebemos, nessa ocasião, empresários do mais alto nível na estrutura de nossos clientes.


A designação para o exterior


O crescimento rápido dos negócios na década de 1960, em ritmo de Brasil grande, fez com que a IBM ampliasse rapidamente seu quadro de funcionários, o que se traduziu para nós em oportunidades de promoção, algumas vezes bem rápidas.

Como, em 1967, o Centro Educacional estava em operação estável, cumprindo normalmente seus objetivos, passei a ficar inquieto e a buscar novos desafios. Aproveitando a oportunidade que a Empresa oferecia de discutir a carreira com os superiores, passei a pedir minha transferência para novos cargos em que eu pudesse usar bem o meu potencial e a experiência adquirida em vendas e no trabalho gerencial; este, na IBM, envolvia interação constante e cuidadosa do gerente com os respectivos funcionários.

No fim daquele ano, quando eu completava cinco anos na gerência do Centro Educacional, fui informado de que estavam analisando algumas alternativas de novo cargo para mim. No começo do ano seguinte, fui sondado sobre uma designação por seis meses para um projeto nos Estados Unidos, começando, talvez, em fevereiro. A descrição do trabalho ainda era vaga (depois me inteirei de que era um projeto confidencial), mas eu, em princípio, mostrei interesse. O assunto evoluiu e o prazo estimado de permanência aumentou para dois anos.

Neste ponto, a designação mudou de figura, pois seis meses não implicavam mudança da família, mas dois anos sim. Portanto, Leilah teria de interromper seu trabalho como arquiteta, os meninos teriam de viver em outro país, aprender Inglês para se comunicar, enfim, adaptar-se a um novo ambiente, muito diferente, até no clima, daquele que tínhamos em São Paulo. Leilah, que seria prejudicada pela interrupção de seu trabalho, foi extremamente solidária e considerou que a temporada seria, também, compensadora para ela – poderia fazer cursos avançados ligados à Arquitetura e adquiriria uma experiência de vida muito importante para uma jovem senhora, então mãe de três filhos. Na verdade, ela priorizou a oportunidade de carreira do marido e de desenvolvimento de todos.

Decidimos, portanto, aceitar a designação, que foi confirmada em abril.


A partida


Eu, Leilah e toda a família passamos imediatamente à preparação para a viagem de mudança. Além das providências normais para viajar, como obter os passaportes e vistos de todos, tínhamos de devolver a casa (alugada) em que morávamos e de adiar a construção de nossa primeira casa própria, cujo projeto estava pronto para entrada na prefeitura.

Enfim, tínhamos de fazer tudo que se sabe necessário para a mudança de uma família para o exterior, com uma única exceção: não levaríamos móveis nem eletrodomésticos, alugaríamos ou compraríamos tudo lá.

*****

Agora que somos avós, podemos avaliar melhor o que a perspectiva de nossa mudança, para tão longe, significou para meus pais e os pais da Leilah, principalmente para estes, que tinham somente aqueles netos e mantinham convivência diária com eles. Além disso, considerando os recursos de comunicação que tínhamos naquela época, a mudança era, mesmo, uma separação drástica. O consolo de todos era o fato de ser uma designação temporária, ou seja, depois de algum tempo estaríamos todos de volta, Leilah, os meninos e eu – o que realmente veio a acontecer.

*****

Tudo pronto, passaportes e passagens na mão, reserva de hotel em Chicago, chegou o dia da viagem. Como era costume naquele tempo, quase todos os parentes e amigos foram ao nosso bota-fora, à noite, no aeroporto de Congonhas, de onde voaríamos primeiro para o Rio e depois para Nova York. Guardei as fotos desse evento e sempre me admira a quantidade de pessoas que foram se despedir de nós naquela noite fria de maio.

Começava, então, nossa maior aventura, aquela, repito, que teria consequências profundas para toda a família, que seria a causa fundamental de, hoje, dois dos quatro filhos estarem morando nos Estados Unidos, um deles há 29 anos; de dois terem feito universidade na Califórnia; de uma das noras e dois dos três netos serem americanos; de todos os filhos serem bilíngues e terem uma formação globalizada.


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As primeiras semanas


Volto a Chicago.

Meu primeiro dia de trabalho foi segunda feira, dia 3 de junho.

Apresentei-me ao Edward (Ted) Armstrong, gerente de nosso grupo. Este não conseguiu esconder sua surpresa, pois não havia recebido confirmação da designação do representante brasileiro. Claro, também fiquei surpreso, mas concordamos que certamente deveria ter acontecido um atraso de comunicação, pois não havia uma ligação direta da IBM Brasil com o grupo em Chicago.

Consolou-me o fato de sentir que era bem-vindo. O Ted logo me levou a uma sala, com uma boa mesa, cadeira e armário para mim; inicialmente, compartilhei a sala com o representante japonês, Hiroaki Fujita.

*****

Terry Crawford, uma das secretárias, levou-me a uma excursão pelo escritório, apresentando-me aos novos colegas e informando sobre o equipamento que estaria à minha disposição: papelaria, perfuradores de papéis, apontadores de lápis, manuais técnicos para consulta, etc. Indicou-me também o local do café, com as máquinas que, no Brasil, ainda não eram usadas em escritórios. Foi assim que fui conhecendo meus colegas da equipe do projeto: três alemães, um suíço, um sueco, um italiano, dois ingleses, um espanhol, um canadense, um francês, um filipino e os americanos. Eles diziam que nosso grupo era uma “Little United Nations”, uma pequena ONU.

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Em resumo, a equipe do projeto era constituída por dois grupos – o dos representantes da IBM Estados Unidos (chamada “Doméstica”) e aquele formado por representantes da IBM Internacional (chamada “World Trade”), a qual incluía as empresas IBM de todos os demais países. O gerente geral do Programa era o Ted e o gerente do grupo da “World Trade” era o Fred Piethe, um dos representantes alemães. Este e todo o grupo americano se reportavam ao Ted.

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Quando cheguei, eram quinze funcionários da Doméstica (um deles, filipino) e doze representantes da “World Trade”, contando comigo.

No grupo americano, além dos representantes, estavam o Especialista Administrativo, duas secretárias e o Commercial Artist, responsável pela criação das ilustrações de nosso material de Marketing e de Educação.

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Apesar de eu ter chegado de surpresa, entrei imediatamente em atividade, pois o Ted já tinha estabelecido um procedimento para cada novo participante da equipe.

Inicialmente, ele mesmo fez uma apresentação resumida (um “briefing”) sobre nosso tipo de trabalho, enfatizando sua característica de rigorosa confidencialidade, pois (só então fiquei sabendo) se tratava do lançamento de uma nova linha de computadores de porte e custo menor, para a base do mercado. Nosso trabalho envolvia a preparação dos fundamentos de marketing, da estrutura e do material de treinamento para o pessoal da IBM e dos clientes; cada membro do grupo viria a ser, também, o coordenador do lançamento do sistema no respectivo país. Ficou bem claro que essas atividades requeriam muito estudo e esforço de criação.

Depois desse “briefing” do Ted, passei à fase de leitura do material disponível, que incluía informações sobre os produtos, guias e modelos de cursos, além de um livro sobre como estabelecer objetivos educacionais.

Além da ambientação no escritório e a interação inicial com os colegas, senti que teria, na primeira semana, bastante ocupação.

*****

Na hora do almoço, o “lunch”, os colegas me conduziram à lanchonete (“cafeteria”) da SRA, onde fui iniciado na comida padrão daquele tempo, do tipo “veal cutlet and mashed potatoes”, saladas (dentre as quais a maior novidade para mim foi a salada de macarrão) e algumas sobremesas atraentes. Meus colegas europeus, especialmente Juan, o espanhol, não gostavam nada da comida e logo comentaram comigo.

*****

Foi um primeiro dia de trabalho agradável, meu Inglês deu para o gasto e, com o Juan, para grande satisfação dele, comecei a usar meu Espanhol. Português, só no telefonema para a Leilah na hora do almoço.

Durante as primeiras semanas no escritório, às atividades do primeiro dia foram acrescentadas reuniões de trabalho e apresentações técnicas dos colegas que me precederam. Foi um tempo de aproximação com os colegas, uma experiência muito interessante, pois éramos pessoas de diferentes culturas se integrando em um ambiente agradável de trabalho. Os americanos, certamente, foram orientados para ajudar os estrangeiros tanto quanto ao ambiente do escritório quanto a dúvidas sobre transporte, restaurantes e outros aspectos da vida nos Estados Unidos. Particularmente, procuravam falar o Inglês da forma mais clara para todos, almoçar conosco e, até, tomar café juntos nos “breaks”, quando nos reuníamos junto às máquinas, em geral grupos de três ou quatro. Para animar, promoviam um cara ou coroa para sortear quem pagava a conta: “Let us flip a coin?” (Cara ou coroa?).

As diferenças de sotaque dos estrangeiros eram muito marcantes e o nível de conhecimento do Inglês também variava. A maioria tinha um vocabulário técnico satisfatório, mas aquele do dia a dia, que incluía alimentos, por exemplo, nem todos dominavam. E os colegas de fala inglesa sempre ajudavam – Bruce Waterworth, canadense de Toronto, chegou a dar aulas para os colegas.

*****

Ao longo do projeto, depois que eu cheguei, houve algumas perdas e substituições, à medida que as etapas foram avançando e os prazos tratados com as organizações dos países terminavam.

O grande mérito de Ted foi montar um grupo que funcionou, realmente, como equipe, apesar das marcantes diferenças entre seus membros, não só de nacionalidade mas também de experiência de trabalho e até de idade. Nosso projeto sofreu diferentes situações de aperto e folga, pois seu cronograma foi alterado algumas vezes por decisões superiores, estratégicas, da Empresa, cujas razões somente fomos entender depois do anúncio do sistema. Nas diferentes situações de calma e correria a equipe se comportou muito bem.

*****

Enquanto eu me iniciava no escritório, Leilah, no hotel com os meninos, cumpria um programa variado de atividades em que exercia sua criatividade e usava seu bom senso. Programava cada dia com as crianças: o café da manhã, os brinquedos no quarto, os passeios nas proximidades do hotel, o almoço, o descanso.

Como o tempo estava favorável, ela foi algumas vezes ao Lincoln Park, que ficava a umas dez quadras do hotel. Era um parque relativamente pequeno mas nele havia até um zoológico.

*****

Leilah procurou entrar em contato com uma professora universitária brasileira, de muito prestígio, indicada pela diretora de uma escola experimental de São Paulo. Esta diretora era uma pessoa de destaque na área de Educação, com quem a Leilah interagiu em um de seus projetos de Arquitetura. A professora de Chicago, Selma, mais velha do que nós, conhecia vários brasileiros residentes na região e procurava agregá-los, apresentando-os uns aos outros. Estes eram, em geral, profissionais fazendo cursos de pós-graduação ou doutorado. Leilah lhe telefonou várias vezes; teve, inicialmente, dificuldade em encontrá-la porque ela viajava com frequência, dava aulas até no Canadá. Quando conseguiram se falar, a Selma foi visitar a Leilah no hotel – e até levou presentes para as crianças. Foi muito gentil e nos fez um grande favor: promoveu nosso contato com um casal de brasileiros, nossos amigos até hoje, que, depois que voltamos ao Brasil, decidiram fixar residência em um dos bons subúrbios de Chicago. Cida e Enio Rigolin são mencionados ao longo deste livro.


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Northbrook


A primeira casa


Na semana de nossa chegada, Leilah iniciou a pesquisa sobre casas para alugar nos subúrbios de Chicago, onde moravam, normalmente, meus colegas de trabalho. Eu contribuía com as indicações que recebia deles; quase todos, mesmo os americanos, novos residentes na área, acompanhados da família.

Já naquela época, na região de Chicago, uma família com crianças morava muito melhor nos subúrbios do que na cidade propriamente dita, pois conseguia alugar ou comprar uma casa confortável, com jardim e quintal, com toda a infraestrutura necessária (água, eletricidade, gás, transporte) e mais escolas e comércio de bom nível.

*****

Tivemos, Leilah e eu, uma ajuda inicial, que nos valeu: um americano que estava a trabalho em São Paulo, conhecido de amigos nossos, havia nos dado, ainda no Brasil, o telefone e endereço de um casal amigo dele que morava em Des Plaines, subúrbio de Chicago. Insistiu para que os procurássemos, pois eles poderiam nos ajudar a procurar casa na região e já estavam avisados de que iríamos contatá-los.

Após alguns telefonemas, marcamos uma visita para o casal de Des Plaines, Steve e Judith Zsebos, num sábado ensolarado. Não tínhamos automóvel ainda; fomos de trem de Chicago a Des Plaines, uma viagem de pouco mais de meia hora. Eles moravam perto da estação.

Steve era um americano claro de uns trinta e cinco anos, de quase dois metros de altura, muito forte, já um tanto gordo. Tinha sido jogador de basquete e trabalhava como treinador em uma “high school” da vizinhança. Judith era clara, loura, bem alta e forte. Tinham filhos da idade dos nossos. Receberam-nos muito cordialmente e ofereceram um churrasco no jardim. Moravam confortavelmente, em uma casa de esquina próxima à área comercial da cidade.

Judith tinha selecionado anúncios de casa para alugar nos subúrbios próximos, mostrou-nos várias alternativas e, no final da análise, sugeriu que nos instalássemos provisoriamente numa casa que uma família de Northbrook estava alugando por dez semanas. Assim, as crianças poderiam sair logo do hotel e procuraríamos a casa definitiva com calma. Pareceu-nos uma boa ideia.

Foi um dia agradável e tivemos a oportunidade de conhecer um subúrbio a oeste de Chicago, em uma região habitada por famílias de classe média. A maioria dos residentes era de “commuters”, ou seja, moravam no subúrbio e trabalhavam em Chicago – o que viria a ser exatamente o meu caso, como já era o da maioria dos meus colegas e amigos.

Na semana seguinte o Steve entrou em contato com o anunciante, serviu de intermediário nosso junto ao corretor e assinamos o contrato. Minha referência como funcionário da IBM ajudou muito. O crachá da Empresa era uma excelente recomendação e facilitava muita coisa, como aluguel de automóvel, reserva de hotel, etc.

A casa era nova, confortável, do tipo “ranch house”, ou seja, térrea, construída em terreno bem amplo, em um loteamento novo em Northbrook.

A ajuda do casal Szebos foi muito importante, pois conseguimos deixar o hotel após três semanas apenas e mudamo-nos para uma casa confortável e bem situada. Para completar, o Steve, no dia da mudança, foi nos apanhar no hotel com um enorme “station wagon” (o que chamávamos “perua” em São Paulo). Levou-nos, a família com toda a bagagem, para a casa nova; ou seja, fez nossa mudança. A viagem não foi curta, pois Northbrook fica a noroeste de Chicago, a uma boa distância de Des Plaines. Foi mais um grande favor, pois não era normal irem a Chicago de automóvel.

Como favor final, o Steve me ajudou a comprar um automóvel, sem o qual não seria possível viver no subúrbio. Ele nos levou a uma revenda e pudemos comprar sem medo um bom carro usado – um Plymouth Fury II, sedan, modelo 1966, que acomodava toda a família. Fomos conservadores, não quisemos comprar um carrão novo, mesmo porque ele iria se desvalorizar muito e não poderíamos trazê-lo para o Brasil quando de nossa volta para cá.

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A casa era nova, bonita e simpática. Plantada em um terreno de uns 30m por 50m, um grande jardim na frente e um vasto quintal no fundo, era térrea, com três quartos de bom tamanho, amplo living-room, boa copa-cozinha e garagem. Uma curiosidade para nós: a casa tinha um banheiro só e não tinha “dependências de empregada”. Tratando-se de casa mobiliada, alugada “por temporada”, tinha todos os utensílios necessários – móveis, louça, panelas, etc.

Quanto aos eletrodomésticos, era bem equipada, mas não tinha ar condicionado, havia alguns ventiladores em janelas. O sistema de aquecimento central era bom, porém não foi necessário, pois era junho e fazia calor.

Tínhamos vizinhos em um dos lados da casa, à esquerda de quem a olhava de frente; no lote do outro lado, bem como naquele que se limitava com o nosso nos fundos, ainda não tinham construído. Tanto o jardim como o quintal tinham algumas plantas, mas a maior parte de sua área era gramada. O quintal serviu muito como um pequeno campo de futebol e tinha aparelhos para as crianças no fundo – um escorregador, balanças e gangorra. Junto à porta de saída da cozinha, a indefectível “picnic table” – uma mesa e bancos de madeira integrados, muito utilizada para churrasco e lanches das crianças.

Tomamos posse da casa e tratamos de nos habituar à nova vida de suburbanos classe média.

Estávamos a cerca de 10 minutos de carro da estação da estrada de ferro que passava em Northbrook, a Milwakee Road, cujos trens passei a usar diariamente para ir trabalhar em Chicago.

*****

No cotidiano da casa, as novidades eram frequentes. Por exemplo, Leilah não entendia como uma casa tão bem equipada não tivesse um aspirador de pó. Procurou em todo lugar, nos armários, na garagem, nada! Até que um dia, um barulho semelhante a uma sirene tomou conta da casa – vinha da garagem, de perto de um aparelho cilíndrico de uns 30 litros. Ela foi até a sala e viu o Francisco (dois anos e meio, lembre-se), sentado no chão próximo a uma espécie de tomada, com uma cara assustada; verificou, então que a “tomada” tinha um botão do lado, apertou-o e o barulho cessou. Em seguida, descobriu o sistema de aspiração de pó da casa: uma tubulação sob o soalho, com “tomadas” onde o tubo portátil externo (que ela achou na garagem) era conectado; o acionamento do motor era feito no botão da tomada e o pó aspirado ia diretamente para o cilindro na garagem. Quando cheguei do escritório à noite, ela tinha essa história para me contar.

De outra feita, o calor dentro de casa ficou insuportável. Logo, ficou claro que o sistema de aquecimento da casa estava com algum defeito. Pesquisamos e descobrimos que o botão que regulava o termostato tinha sido girado para a posição de 90 graus Fahrenheit; ou seja, dentro de casa estava mais de 32 graus Celsius. Essa experiência foi debitada ao Luiz, o mais velho.

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Os vizinhos eram um casal com dois filhos, um menino de uns seis anos e uma menina menor. O marido era holandês e a esposa americana. Como bom holandês, ele se aproximou quando nos viu jogando futebol no quintal e passou a participar, com o filho, de nossas peladinhas.

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Leilah logo descobriu os supermercados e shopping centers das redondezas e passou a fazer as compras, sem problemas, ampliando seu vocabulário, especialmente de vegetais, frutas e alimentos em geral. Tinha de levar as crianças, claro, pois não tinha ajuda doméstica. As compras maiores ficavam para o fim de semana, quando eu podia ajudar. Uma delas, importante, foi a das bicicletas para os meninos. Cada um escolheu a sua; o Francisco ganhou um velocípede.

Um dia de semana, Leilah foi de automóvel com as crianças a um shopping center em Glenview, indicado por amigos. Luiz, com um mapa, auxiliava a mãe como navegador. Porém, estava chovendo forte e ela confundiu a entrada do shopping; de repente, estava invadindo a base aérea de Glenview e só percebeu o engano quando os policiais da Aeronáutica os pararam com certo estardalhaço. Ela acabou chegando ao shopping e fez as compras de que precisava.

Foi apenas um susto, mas não nos esquecemos do incidente até hoje. Sabíamos da existência da base, pelo movimento dos aviões militares, mas certamente não tínhamos a menor intenção de visitá-los – muito menos de surpresa!


Cida e Enio


Dentre os brasileiros conhecidos da Selma (a professora universitária de quem tivemos referência em São Paulo), ela mesma identificou o casal Cida e Enio Rigolin como aquele com quem provavelmente nós teríamos mais interesses comuns, pois eles também tinham filhos – na verdade, duas filhas – mais ou menos da idade dos nossos.

Leilah telefonou para a Cida, apresentaram-se à distância, e começaram a conversar. O casal era do interior de São Paulo, ele médico e ela professora. Enio estava em regime de bolsa fazendo doutorado em Psiquiatria. As filhas eram Vera e Carla, que regulavam de idade com o Luiz e Cássio, respectivamente. Morávamos em bairros distantes um do outro, de modo que só podíamos nos encontrar em fins de semana.

Depois de alguns telefonemas, nos quais a Cida deu informações à Leilah sobre compras e redes de supermercados e shoppings, marcamos um encontro num sábado. O local escolhido por eles foi o Parque Santa Claus, em Elgin, Illinois, cidade próxima, a oeste de Chicago. Como não nos conhecíamos, combinamos que eu iria chamá-los pelo alto-falante do parque às 10 horas da manhã. Acertei o caminho, chegamos ao parque e me dirigi à cabine de comunicação. Pedi que chamassem o Dr. Enio. Quando foi transmitida a mensagem, muita gente riu, porque a pronúncia do nome dele soou como a de “onion” – e muita gente pensou que era uma gozação: “Washington chamando o Dr. Cebola!”.

Apesar de tudo, a mensagem funcionou, nos conhecemos e tivemos um dia muito agradável. E aprendemos que Santa Claus era o Papai Noel.

*****

Depois de umas duas semanas, já estávamos estabelecidos na casa e decidimos fazer um churrasco para os amigos. Convidamos Cida, Enio e filhas; Judith, Steve e filhos; e os vizinhos “holandeses”. Havia na casa uma bela churrasqueira, de bom tamanho, com rodinhas e tampa em formato de maçã. Compramos o carvão, escolhemos belos cortes de carne, salsichas e linguiças; preparamos a salada, as guarnições, os drinques, gelamos a cerveja e refrigerantes e nos preparamos para recebê-los. Foi uma tarde de sol muito gostosa, com futebol e brinquedos para as crianças menores. O churrasco foi um sucesso: não usei o molho de churrasco padrão lá deles, usei apenas salmoura que eu aspergia com um galhinho de mato que colhi no terreno ao lado de casa. Aprendi essa técnica com um colega gaúcho da IBM.

Todos comeram bem e elogiaram muito a carne. Um dos convidados me perguntou se o galho de mato era alguma erva especial; não consegui mentir para ele.

O Enio me fez o grande favor de filmar o evento para mandarmos o filme super oito para a família em São Paulo. Mais de quarenta anos depois, consegui resgatar o filme. Apesar de danificado, pude convertê-lo para DVD de forma a revermos a maioria das cenas daquele dia memorável, em que aparecem os jovens adultos, que envelheceram, e as crianças, que são adultos já faz tempo.

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Cida e Enio não voltaram a morar no Brasil, passaram a residir definitivamente nos Estados Unidos. Algum tempo depois de nossa volta ao Brasil, tiveram a terceira criança, o Enio Jr., nascido nos Estados Unidos.

Moram em uma ótima casa em Glencoe, subúrbio ao norte de Chicago, junto ao lago Michigan.

Continuamos em contato com eles por meio de cartas de final de ano, telefonemas e, mais recentemente, por e-mail e Skype. Visitamo-nos algumas vezes, quando, a passeio, eles vieram ao Brasil e nós fomos a Chicago.

São daquele tipo de amigos que, quando os encontramos, temos a impressão de que nos vimos ontem; efeito, talvez, de nos termos conhecido jovens. Agora, mais velhos, gostamos de nos atualizar mutuamente com as notícias de filhos e netos. Enio ainda exerce a psiquiatria e Cida dá aulas de Português para executivos americanos e seus familiares.


Polly e Tom


Era tempo de férias escolares e estávamos preocupados com a preparação dos meninos para o período escolar – especialmente com a iniciação deles em Inglês e sua interação com os meninos da vizinhança. Algumas vezes, a dificuldade de comunicação com estes resultou em conflito; como não se entendiam, brigavam.

Leilah contatou a escola primária local e visitou a Diretora, explicando-lhe nossa necessidade; ela informou que os professores estavam de férias e apenas uma das professoras estava em Northbrook porque o marido dela, médico, estava voltando do Vietnam. Deu o telefone da professora, Mrs. Pauline (Polly) Stilp. Seu marido era o Dr. Thomas (Tom) Stilp.

Além dessa informação, a diretora ofereceu cursos de verão na escola para os dois mais velhos. Leilah inscreveu-os em diferentes atividades: o Luiz, nos cursos de Educação Física e Artes Plásticas e o Cássio, em Artes Plásticas.

Polly não ensinava Inglês para alunos estrangeiros e, de qualquer forma, não pretendia dar aulas naquela ocasião, mas foi visitar a Leilah com seus dois filhos: Tom Jr., que tinha a idade do Cássio, e Sam, que regulava com o Francisco. A ideia dela foi juntar as crianças, orientando suas atividades, de forma que brincassem juntas e pudessem se comunicar.

Desse encontro nasceu entre os casais uma amizade que dura até hoje.

Desde o primeiro contato, a Polly foi muito atenciosa conosco. Na casa dos trinta anos, um pouco mais moça que a Leilah, era loira, magra, cerca de 1,70m de altura; é natural do estado do Wisconsin. Embora morasse no mesmo bairro, não era exatamente vizinha e não tinha obrigação alguma de nos ajudar na adaptação à comunidade. Porém, interessou-se por aquela família diferente e tornou-se amiga. Num sábado, fez em sua casa uma reunião com amigos e nos convidou. Parece que comemoravam a volta do Tom do Vietnam. Ele, também natural do Wisconsin, era louro, magro, com pouco mais de 1,70m de altura. Foi simpático, nos recebeu muito bem. A reunião foi à noite, não me lembro da comida; como fazia calor, tomamos cerveja – e eu fui apresentado à “ale”, aquela cerveja mais forte, de que gosto até hoje. Foi uma primeira experiência social com vizinhos e pudemos nos comunicar razoavelmente. Tempos depois, quando já tínhamos mais intimidade, a Polly contou que o Tom, naquele dia, ao nos convidar, ficara preocupado sobre que tipo de assunto teríamos em comum, ele e um brasileiro, para termos uma boa conversa.

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Logo depois de nossa volta ao Brasil, nasceu seu terceiro filho, Ben, em dezembro de 1969.

Mudaram-se para uma casa enorme, uma mansão, em Wilmette, um subúrbio ao norte de Chicago, onde moraram por muito tempo. Quando se aposentaram, mudaram-se. Hoje, moram num subúrbio próximo, Evanston, e o Sam, o segundo filho, mudou-se para a mansão de Wilmette.

Visitamos o casal algumas vezes e eles estiveram no Rio uma vez.

Eles hospedaram a Jurema, nossa filha, então com 15 anos, por um período de três meses, para ela estudar como ouvinte na High School onde a Polly lecionava. Como não têm filha mulher, decidiram “adotá-la” temporariamente, fizeram muita festa para ela. Em outra ocasião, levaram-na em uma viagem que fizeram à Itália.

Continuamos mantendo contato com eles, da mesma forma que fazemos com Cida e Enio: por correio, telefone e, mais recentemente, por e-mail. Também envio a eles nosso cartão de Natal, com notícias da família.

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Um dos objetivos meus deste ano é intensificar a comunicação com os amigos de lá, aproveitando os novos recursos da Internet.


Beth e Guto


A Cida e o Enio eram muito amigos de Elisabeth e Carlos Augusto, de forma que logo começamos a fazer programas juntos – os três casais e as crianças. Eles formavam um casal muito simpático, com uma linda filhinha, Ana, então com uns três anos. O Guto era um sujeito muito simpático, moreno, alto, da família Isnard, a qual conhecíamos de nome em São Paulo. Estava fazendo doutorado em Matemática. Apesar de minha formação de engenheiro, nunca conversamos sobre seus estudos, pois eu sabia que não iria entender o que ele fazia. Ela, com cerca 1,65m de altura, pele e cabelos castanhos claros, era muito bonita, educada e simpática. Guto e Beth eram um pouco mais jovens do que eu e Leilah, respectivamente.

Vivíamos em bairros distantes e usávamos muito o telefone para conversar com os amigos brasileiros. A Leilah me lembrou que, em um telefonema á Beth, ao lhe pedir a indicação de uma loja para comprar um casaco para o inverno, esta disse que havia ganho um lindo casaco de uma loja de Chicago para a qual ela costumava desfilar e se ofereceu para enviar o casaco. Recebemos o casaco, devidamente embalado, pelo Correio! Foi uma surpresa para nós, pois aqui no Brasil não se recorria ao Correio para esse tipo de entrega.

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De Chicago, Beth e Guto se mudaram para outra Universidade, numa cidade pequena, também em Illinois; passamos, então, a nos encontrar raramente. Voltaram ao Brasil depois de nós. Embora morassem no Rio, não restabelecemos o contato.


A nova vida de “commuter”


Em Northbrook, tivemos realmente nosso início de vida como residentes nos Estados Unidos, em um subúrbio de uma grande cidade americana. Ganhamos a condição de “suburbanites”.

Leilah me levava à estação todo dia de manhã e ia me buscar à tarde, até que, depois de um mês, mais ou menos, resolvemos comprar um carro velho só para eu ir e voltar da estação sem precisar da carona dela.

Assim, passei a ser um “commuter”, um homem vestido de terno e gravata – e chapéu, casaco ou capa quando necessário – com uma pasta de papéis, de preferência tipo 007, com um jornal na mão para ler no trem. Embarcava em Northbrook e descia na Union Station no centro de Chicago. Da estação, ia de ônibus até um ponto que distava umas quatro quadras do escritório. Saía de casa às sete da manhã e voltava cerca de seis e meia da noite. Era verão, ainda dava para brincar com as crianças na volta, pois o sol se punha bem mais tarde; durante alguns dias, anoiteceu às nove e meia.

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Leilah, em casa, enfrentou algumas situações difíceis.

Um dia, os dois mais velhos, Luiz e Cássio estavam brincando e este, ao sair correndo da cozinha para o quintal, enfiou o braço no vidro da porta e se cortou com certa gravidade, pois sangrou bastante. Leilah conseguiu o endereço de um pronto-socorro e levou o Cássio para lá. Ele foi bem atendido e, felizmente, se recuperou logo. O médico que o atendeu, já veterano, tinha estado no Brasil, em Natal, por ocasião da segunda guerra. Foi uma coincidência que ajudou no atendimento.


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